Em meio a uma polarização crescente do mundo entre Estados Unidos e China, com a guerra da Rússia contra a Ucrânia como pano de fundo, o G20 fará uma de suas reuniões mais importantes de sua história de pouco mais de duas décadas.
De forma efetiva, os olhos estarão para o reducionismo G2, indicando americanos e chineses como os atores que interessam para todo o resto do mundo. Nesse sentido, a invasão de Vladimir Putin, aliado de primeira hora de Xi, é apenas uma primeira salva a quente no contexto da Guerra Fria 2.0 iniciada em 2017.
Biden e Xi se encontrarão às margens da reunião do grupo das 20 maiores economias do mundo, formado em 1999, após ironicamente uma sucessão de crises econômicas que culminou com a quebra da então Rússia de Boris Ieltsin. Será a primeira vez em que ambos se falarão ao vivo desde que Biden assumiu, em 2021. Antes, houve videoconferências.
A reunião ocorrerá na paradisíaca Bali, ilha indonésia, de terça (15/11) a quarta (16). Putin também era aguardado, mas a sequência de reveses militares em solo ucraniano e o mal-estar da presença entre uma plateia francamente contrária à guerra o fizeram desistir de comparecer.
Não que a questão russa não estará presente. Biden tem feito acenos ao Kremlin, pedindo nos bastidores para que Kiev aceite a ideia de uma negociação. A retirada anunciada de Moscou da capital da região de Kherson, anexada pelos russos no sul ucraniano, sugere várias coisas, inclusive a disposição de um estabelecimento de fronteira desmilitarizada.
Xi é a principal voz no ouvido de Putin, que com o recuo mostrou-se mais flexível do que é usualmente percebido. Ele não foi derrotado militarmente, mas pressentiu a debacle, admitindo que não tinha como ganhar. Poupou forças e ainda deixa em aberto seu real intento.
O russo está no jogo para o longo prazo, contra o Ocidente, não a Ucrânia em si. Xi, por sua vez, comunga da mesma ideia, mas tem problemas mais imediatos para resolver com Biden —para não falar em encrencas paralelas, como a renovada assertividade nuclear da Coreia do Norte.
O principal é a crise econômica que assombra o regime chinês. Após o tombo da pandemia e a recuperação de 2021, a segunda maior economia do mundo está crescendo a passos de país desenvolvido que ainda não é, ao ritmo entre 3% e 4% neste ano.
Há dúvidas acerca da solvência do mercado imobiliário chinês e questões ligadas à disrupção da cadeia produtiva do país devido à política de Covid zero adotada por Xi. Mais importante, os EUA declararam uma verdadeira guerra ao estabelecer restrições draconianas para a venda de chips avançados aos chineses.
O mercado de semicondutores, essencial para a inovação e para aplicações que vão de carros a aviões de caça, é centrado na fulcral ilha de Taiwan, que Pequim considera sua e está em franca preparação militar para a hipótese de tomada à força.
Folhapress





