Os oito filhos de Eric Agustin costumavam chamar o primeiro dia da semana de “domingo de festa”. A família acordava, assistia a uma breve missa matinal numa paróquia perto de casa, depois voltava para almoçar e passar uma tarde descontraída assistindo ao futebol.
Mas neste ano eles fizeram uma grande mudança. No santuário de São José, nova paróquia que frequentam, a liturgia é ornamentada, coreografada com precisão e conduzida inteiramente em latim. A família dirige uma hora para assistir a um culto que começa às 11h e pode durar quase duas horas.
A missa tradicional em latim, antiga forma de culto que o papa Francisco tentou desencorajar, está renascendo nos Estados Unidos: atrai uma mistura de tradicionalistas da estética, famílias jovens, novos convertidos e críticos do papa. E seu ressurgimento, impulsionado pela pandemia, faz parte de uma crescente tendência de direita no cristianismo americano.
A missa em latim provocou uma ampla discussão na Igreja Católica dos EUA não apenas sobre canções e orações, mas também sobre o futuro do catolicismo e seu papel na cultura e na política. Os adeptos tendem a ser socialmente conservadores e de mentalidade tradicional. Alguns, como a família Agustin, são atraídos pela beleza, o simbolismo e o que descrevem como uma forma de adoração reverente.
Outros foram atraídos por uma nova retórica da comunidade de direita que encontraram em grupos online. Eles veem a tentativa do papa de cercear a missa em latim como exemplo dos perigos de um mundo que se desvincula dos valores religiosos ocidentais.
A missa tradicional, a “forma extraordinária”, foi celebrada por séculos até as transformações do Concílio Vaticano 2º, na década de 1960, que pretendiam em parte tornar o rito mais acessível. Depois dele, a missa podia ser celebrada em qualquer idioma, a música contemporânea entrou em muitas paróquias e padres se voltaram para as pessoas nos bancos.
Mas o culto em latim nunca desapareceu totalmente. Embora represente uma fração dos que são realizados nas 17 mil paróquias dos EUA, está prosperando. O país agora parece ter ao menos 600 locais que oferecem a missa tradicional, o maior número de qualquer nação.
O crescimento se dá enquanto Francisco reprime o modelo, estabelecendo novos limites rígidos ao rito. Seu antecessor, Bento 16, ampliou o acesso à antiga missa, mas Francisco a caracterizou como uma fonte de divisão na igreja e disse que muitas vezes está associada a uma rejeição mais ampla dos objetivos do Concílio Vaticano 2º.
A divisão sobre a antiga missa representa um choque de prioridades e lutas de poder na liderança da igreja. Nas paróquias é mais complicado. Muitos católicos dizem que são atraídos à missa por motivos espirituais, apoiados por preferências estéticas e litúrgicas, não por partidarismo. “Há uma reverência em um nível mais avançado”, diz Agustin.
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