O prolongamento do conflito na Ucrânia, o maior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial, tem colocado à prova as capacidades militares do invasor russo e do Ocidente, principal fiador da resistência de Kiev.
As perdas humanas e materiais são enormes, assim como o desafio de manter a iniciativa em meio à redução de arsenais à disposição dos beligerantes. Com a entrada do conflito em um novo ano, há mais dúvidas do que certezas sobre o gás à disposição de ambos os lados.
“A verdade é que sabemos pouco sobre o quanto realmente Vladimir Putin havia se preparado para a guerra”, diz o cientista político russo Konstantin Frolov, que deixou Moscou e desde maio vive em um país do Leste Europeu que ele pede para não nomear.
Os danos à máquina de guerra russa são, pelo que é aferível, enormes. Segundo o site holandês Oryx, que faz monitoramento militar a partir de fotos e vídeos comprovados e checados por georreferenciamento e outros métodos, Moscou perdeu 1.573 tanques até o dia 15.
Isso equivale a metade de toda a frota de blindados do tipo ativos, novos ou modernizados, contados pelo londrino IISS (Instituto Internacional de Estudos Estratégicos, na sigla inglesa) em seu balanço de 2021. Como a conta do Oryx inclui modelos que estavam estocados, como o T-64, não se trata de dizer que Putin perdeu metade de seus tanques.
Mas é uma enormidade, e a contagem é conservadora, ainda que não tenha como estimar reforços construídos agora. Ela é ainda menos exata no caso ucraniano porque, como as perdas se dão em seu solo, é natural que haja menos registros de imagens delas.
Diz o Oryx que Kiev já perdeu 435 tanques. Seu inventário pré-guerra era de 987 unidades, e ao longo da guerra a Polônia lhe repassou nada menos do que 230 modelos soviéticos T-72.
Os poloneses, dos mais belicosos e antirrussos integrantes da Otan (aliança militar dos EUA), figuram como sexto maior doador de ajuda militar, financeira e humanitária ao vizinho, ultrapassando em termos nominais países como a França.
Varsóvia fracassou na tentativa de repassar sua frota de 28 caças soviéticos MiG-29 aos ucranianos, algo que a Eslováquia quer fazer, por temor ocidental de provocar Moscou. Até aqui, diz o Oryx, Kiev perdeu ao menos 15 de seus 37 modelos do tipo, além de 5 dos 34 Su-27, mais sofisticado.
Parece pouco: russos perderam 67 de seus 1.391 aviões de combate do pré-guerra, ante 55 de 124 da Ucrânia, com mais de 10% de sua frota avançada de caças Su-30 e aviões de ataque Su-34.
Segundo o Instituto para a Economia Mundial de Kiel (Alemanha), que escrutina as transferências, até o dia 7 de dezembro a Ucrânia já havia recebido US$ 40,2 bilhões em armas e financiamento militar do Ocidente, US$ 24 bilhões vindos dos EUA. Isso é dez vezes mais que seu orçamento anual com defesa em 2021.
Isoladamente, esse valor entraria em 11º no ranking dos maiores gastos militares no ano passado, organizado pelo IISS. O Brasil, por exemplo, despendeu pouco mais do que a metade disso. “Isso mostra uma nova realidade mundial, mas também indica que haverá limites para o Ocidente”, afirma Frolov.
“Até aqui, o apoio da União Europeia à Ucrânia sempre ficava atrás do dos EUA. Isso tem mudado nas últimas semanas, o que é um desenvolvimento bem-vindo, dado o grande papel dessa guerra para a segurança continental”, escreveu o coordenador do monitor do instituto de Kiel, Christoph Trebesch.
Ao todo, em termos de ajuda total, Washington já desembolsou US$ 51 bilhões com a guerra, enquanto Bruxelas entrou com US$ 55 bilhões. Se esse único cômputo fosse o PIB de um país, o colocaria ao lado de nações como Venezuela e Equador —e o valor ainda não computa a promessa natalina de Joe Biden a Volodimir Zelenski de mais US$ 2 bilhões em armas.
Folhapress





