
Pressionada pela dificuldade em sua contraofensiva e pela campanha de bombardeio contra seus portos, a Ucrânia conseguiu sucesso em uma ação ousada e inédita na madrugada desta sexta (4/8): atacou com drones marítimos uma base naval na Rússia, danificando um grande navio de transporte do adversário.
A operação foi conduzida pelo SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) e confirmada pela Defesa da Rússia. O que difere foi o resultado divulgado: Moscou afirma ter repelido o ataque abatendo dois drones, e Kiev clamou sucesso ao abalroar o navio de transporte de tropas Olenegorski Gorniak no mar Negro.
Imagens e relatos de analistas apoiam a versão ucraniana. O SBU divulgou um vídeo gravado de dentro do drone marítimo, essencialmente um barco carregado com estimados 450 kg de explosivos do mesmo tipo que já havia atingido a ponte que liga a Crimeia anexada à Rússia no mês passado.
No registro divulgado por Kiev, o aparelho se aproxima e atinge o centro de um navio com perfil semelhante ao do Olenegorski Gorniak. Pela manhã, emergiram vários vídeos em redes sociais feitos por russos da embarcação inclinando e, depois, sendo rebocada em Novorossisk. A Folha falou com um analista militar em Moscou, próximo ao Ministério da Defesa, que confirmou o dano do ataque.
Mais importante do que a avaria é a natureza da ação. Novorossisk, porto por onde passam 2% da produção mundial de petróleo, fica a 850 km por mar da região de Odessa, principal área portuária da Ucrânia. Os drones são muito difíceis de detectar, pois são quase submersíveis, ficando apenas parte de sua estrutura para fora da água. Ainda assim, o alcance da ofensiva impressiona.
O Olenegorski Gorniak, de 112 metros de comprimento, pertence à Frota do Norte russa, baseada no Ártico, mas desde o início da guerra apoia as ações no mar Negro. Ele serve de transporte para soldados e equipamentos da Rússia para os portos ocupados na costa do mar de Azov, um ramo do mar Negro.
O terminal comercial de Novorossisk carrega petroleiros com produto russo e também do Cazaquistão, que chegam lá pelo Consórcio do Oleoduto do Mar Cáspio. Segundo o órgão, não houve danos à sua infraestrutura ou a navios fundeados lá. Para driblar as sanções ocidentais, a Rússia aumentou vertiginosamente a exportação de óleo, com preço mais barato, para países como Índia e China.
No mais famoso resort russo, Sochi, 280 km ao sul do porto e sede da Olimpíada de Inverno de 2014, a segurança foi reforçada para os 200 mil turistas ora visitando a cidade.
Os ucranianos tentavam atingir navios russos desde a semana passada, segundo Moscou, que sempre divulgou êxito em afundar os drones. Como não tem mais uma Marinha operante, Kiev apostou nas embarcações de controle remoto. Em 2022, conseguiram a mais simbólica vitória na guerra ao afundar o cruzador pesado Moskva, nau capitânia da Frota do Mar Negro, com mísseis disparados de terra.
A ação confirma o mar Negro como palco renovado das hostilidades desde que Vladimir Putin abandonou o acordo que permitia o escoamento da produção de grãos de Kiev pelo corredor marítimo que liga sua costa ao estreito do Bósforo, na Turquia, para dali ganhar o Mediterrâneo.
Folhapress





