17/09/2026

Queda de Assad na Síria revela império do captagon, a ‘cocaína dos pobres’

Na antiga fábrica de salgadinhos Captain Korn (Capitão Milho) em Douma, cidade vizinha de Damasco, escondia-se o maior centro de produção e armazenamento de captagon —conhecida como a “cocaína dos pobres”— na Síria.

O local, assim como várias outros com estrutura parecida, foi descoberto nesta semana pela milícia HTS (Organização para a Libertação do Levante, na sigla em árabe), que derrubou o ditador Bashar al-Assad e assumiu o poder.

A Folha esteve nesta e em outra unidade clandestina que produzia a droga sintética, em Al-Dimass, a 30 quilômetros da capital síria. A Síria responde por 80% da exportação mundial de captagon, cuja receita se tornou a principal fonte de recursos do regime. Familiares do ditador estavam envolvidos diretamente no negócio, de acordo com os rebeldes.

A fábrica de Douma fica no topo de uma montanha e, antes da queda de Assad, era vigiada por soldados das Forças Armadas sírias em guaritas. No primeiro andar, havia um depósito com dezenas de pilhas de caixas para transporte de laranjas, que servia de fachada. No subsolo se concentrava a fabricação do estimulante, um comprimido que tem efeitos semelhantes à cocaína –causa euforia e deixa a pessoa alerta e autoconfiante.

A substância ativa, o cloridrato de fenetilina, foi desenvolvida na Alemanha nos anos 1960 para tratamento de narcolepsia (distúrbio de sono excessivo) e déficit de atenção. Mas, devido ao alto potencial viciante, foi banido pelo escritório de drogas da ONU e por vários países nos anos 1980.

O captagon ficou conhecido como a droga dos jihadistas, porque era usado por combatentes extremistas islâmicos na guerra da Síria. O uso se disseminou por todo o Oriente Médio, de motoristas de caminhão e táxi que querem ficar acordados a operários de construção, militares no front e jovens nas baladas.

Integrantes da HTS mostraram como os traficantes ligados ao regime escondiam os comprimidos dentro de laranjas e maçãs de plástico, no interior de estabilizadores de voltagem, em cintos e mesas.

O depósito subterrâneo tinha dezenas de caixas desses estabilizadores. Na frente da reportagem, um combatente abriu uma delas e indicou onde estavam escondidos 3 kg de captagon, no interior de uma bobina de cobre.

A fábrica de salgadinhos pertencia ao empresário Fares al-Tout e foi confiscada em 2018 por ordem da Quarta Divisão do Exército Sírio, liderada pelo irmão de Bashar al-Assad, o temido Maher.

O centro passou a ser tocado por Amer al-Khiti, empresário próximo a Maher. No ano passado, o Reino Unido impôs sanções contra Khiti, afirmando que ele “opera e controla múltiplos negócios na Síria que permitem a produção e o tráfico de drogas, entre elas o captagon”. Os EUA impuseram sanções contra Khiti em 2020.

No ano passado, o Departamento do Tesouro americano sancionou dois primos de Assad, Samer Kamal al-Assad e Wassim Badi, também acusados de envolvimento na fabricação e contrabando dos comprimidos.

A HTS prometeu acabar com a produção e o contrabando de captagon na Síria. Trata-se de uma demanda de alguns dos países que apoiaram o grupo na derrubada de Assad, como o Qatar. Lá, assim como na Arábia Saudita, nos Emirados Árabes, na Jordânia e no Iraque, o estimulante se tornou um problema de saúde pública. Segundo o Comitê de Controle de Drogas saudita, 90% dos usuários de captagon tinham de 12 a 22 anos.

Após interceptar caixas de frutas com comprimidos de captagon escondidos no meio de laranjas, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes proibiram a importação de produtos agrícolas libaneses, que estariam vindo da Síria.
Folhapress

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