Com o término do período eleitoral, governadores eleitos em todo o Brasil se preparam para assumir seus mandatos. A partir do início de 2023, dois estados serão governados por políticos abertamente LGBTQIA+: Eduardo Leite (PSDB), no Rio Grande do Sul, e Fátima Bezerra (PT), no Rio Grande do Norte.
Eduardo Leite renunciou ao governo gaúcho em 31 de março, diante da possibilidade de concorrer à Presidência da República, hipótese que não se confirmou. Ele retorna ao Palácio Piratini em 2023, quebrando uma tradição e se tornando o primeiro a comandar o estado por dois mandatos seguidos.
Com a eleição de Leite, as atenções se voltaram também ao namorado do político, o médico pediatra Thalis Bolzan, que tem recebido mensagens de felicitação nas redes sociais. Leite revelou ser homossexual em entrevista à TV Globo em julho de 2021.
Em várias das mensagens, usuários se referem a Thalis como “primeiro-cavalheiro“.
O substantivo primeiro-cavalheiro não consta no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), organizado pela Academia Brasileira de Letras (ABL). A consultora de língua portuguesa Thaís Nicoleti, que assina o blog que leva seu nome na Folha de S. Paulo, explica que o fato de uma palavra não constar do Volp não significa que ela seja “incorreta”. “Normalmente, a palavra entra em circulação e só depois de fixada no uso é que entra nos dicionários e também no Volp”, diz Nicoleti.
“Em tese, a palavra pode vir a integrar o Volp futuramente, mas, antes, é preciso que o seu uso se fixe naturalmente entre os falantes, e isso depende da sua correspondência a uma realidade concreta e da sua utilidade no processo comunicativo”, completa.
A especialista afirma que a língua é um território livre, o que dispensa decisões institucionais para criar palavras e usá-las.
Em países governados por mulheres, já houve o uso do equivalente a ‘primeiro-marido’ ou ‘primeiro-cavalheiro’, mas, normalmente, os maridos não reivindicam esse status, que está ligado a funções menos importantes”, pontua.
A especialista enfatiza a importância de reflexões sobre a origem e o uso de termos como “primeira-dama” e “primeiro-cavalheiro”.
“Toda reflexão sobre a língua é importante porque é, ao mesmo tempo, uma reflexão sobre a realidade. Por exemplo, no caso de o governante ser um homossexual legalmente casado, pode ressurgir a questão com algumas nuances. Cabe perguntar se seria apropriado atribuir ao marido de um governador a alcunha de ‘primeiro-cavalheiro’”, afirma.
“O termo original é feminino, ‘primeira-dama’, exatamente porque sua função pressupõe a posição de coadjuvante de um homem, sendo este, por suposição, sem o nome, é claro, o ‘primeiro-cavalheiro’.
CNN BRASIL





