17/09/2026

Filha é presa acusada de roubar da mãe R$ 725 mi, incluindo quadro de Tarsila.

Uma mulher foi presa no Rio de Janeiro sob suspeita de roubar da própria mãe mais de R$ 725 milhões, a maior parte em obras de arte. Entre os quadros estão obras de Tarsila do Amaral e Di Cavalcanti. Também foram roubadas joias e feitas transferências bancárias.

A idosa, a francesa Geneviève Rose Coll Boghici, tem 82 anos e foi mantida em cárcere privado por cerca de um ano. A suspeita dos crimes é sua filha, Sabine Coll Boghici, que tentou carreira como atriz e cantora e ostenta um ativismo ferrenho de protetora de animais.

Ao todo, quatro pessoas foram presas por agentes do DEAPTI (Delegacia Especial de Atendimento à Pessoa da Terceira Idade): Sabine, a filha; Rosa Stanesco Nicolau, conhecida como Mãe Valéria de Oxóssi e companheira de Sabine; Gabriel Nicolau, filho de Rosa; e Jacqueline Stanescos. Estão foragidos Diana Rosa Aparecida Stanesco Vuletic e Eslavo Vuletic, pai de Diana.

A reportagem não conseguiu localizar a defesa dos detidos e dos considerados foragidos.

O cálculo dos R$ 725 milhões inclui as obras de arte avaliadas pela vítima em aproximadamente R$ 710 milhões, joias roubadas estimadas em R$ 6 milhões, pagamentos de R$ 5 milhões feitos pela francesa após ser enganada e de outros R$ 4 milhões feitos sob suposta coação e ameaça.

A polícia foi a 14 endereços e divulgou ter recuperado 11 obras de arte embaixo de uma cama na casa de Rosa Nicolau, onde também estava Sabine. A galeria Jean Boghici, em Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, onde ficava parte das obras, está vazia, com sinais de abandono e sujeira.

Foram roubados e vendidos 16 quadros para galerias de arte. Uma das galerias, que fica em São Paulo, comprou três obras com valor estimado em R$ 300 milhões.

Ainda segundo a polícia, pelo menos duas dessas obras foram revendidas para o Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires): “Elevador Social”, de Rubens Gerchman, de 1966, e “Maquete para o Meu Espelho”, de Antonio Dias, de 1964. Em nota enviada por sua assessoria de imprensa, o fundador do museu, Eduardo Costantini, afirma no entanto que as aquisições foram feitas para sua coleção privada, e não para o acervo do museu.

O dono da galeria de arte paulista disse à polícia que não desconfiou de que as obras eram roubadas da idosa. Ele afirmou conhecer a família e ter recebido os quadros da própria filha da proprietária.

O perito Nilton Taumaturgo, do Instituto de Criminalística Carlos Éboli, fez uma avaliação preliminar das obras e atestou o valor dos quadros encontrados. “Posteriormente, será feita uma avaliação mais complexa laboratorial. É incontestável que as obras são verdadeiras. Apenas uma obra está com a moldura danificada”, afirmou o perito.

A idosa foi casada com o romeno Jean Boghici, que era colecionador e negociador de arte, e herdou os quadros após a morte do marido, em 2015. Sabine, a mulher presa suspeita dos crimes, é filha do casal.

Em setembro de 2012, um incêndio destruiu parte do acervo do casal, que vivia em uma cobertura em Copacabana, na zona Sul do Rio. Entre as perdas estavam obras importantes de artistas como Di Cavalcanti e Alberto Guignard, respectivamente “Samba” (1925) e “A Floresta”.

Também foram perdidas as obras “A Mulher e o Galgo”, de Vicente do Rego Monteiro, “A Leitura”, de Lasar Segall, uma tela do uruguaio Joaquín Torres-García e outra do francês Nicolas Antoine Taunay.

Cerca de 15 das 150 obras do acervo do casal Boghici foram queimadas na ocasião. Entre as pinturas que se salvaram do incêndio estão três obras de Tarsila do Amaral e a famosa “O Beijo”, de Rodin, da década de 1880.

O casal tinha 14 gatos e dois cachorros. Dois gatos morreram no incêndio. “Foi o pior de tudo. Perdemos nossas gatinhas prediletas”, disse Geneviève à Folha na época.
Folhapress

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