Depois de três meses morando a meia hora da Disney, Jair Bolsonaro (PL) está de volta.
Ele chegou nesta quinta (30/3) ao país que deixou dois dias antes de concluir seu mandato, desgostoso com a vitória de Lula (PT). O ex-presidente desembarcou às 6h38 em Brasília, epílogo de uma temporada na Flórida em que viveu numa zona de conforto que dificilmente se reproduzirá na terra natal.
As últimas horas em solo americano lhe foram gentis. No aeroporto de Orlando, recebeu muitas abordagens, quase todas simpáticas a ele. Uma mulher chorou com a oportunidade de abraçá-lo.
O ex-mandatário ganhou aplausos quando entrou num avião de carreira da Gol, a “nave do Harry Potter”, com a blindagem coberta por cenas da saga do bruxinho. Só uma voz hostil rompeu o clima amistoso, com um único grito: “Cadeia!”.
Bolsonaro esperou a partida do voo no Premium Plaza Lounge, espaço vip do terminal.
Ficou numa área no fundo, separada das demais por um cartaz onde se lia “reserved”. Ainda nesse espaço, posou para fotos com três funcionários da Azul, animados com sua presença. Petiscou um biscoito de pasta de amendoim e um café adoçado com um sachê de açúcar.
Mais amarga foi sua reação a repetidas tentativas da reportagem em ouvir o que ele tinha a dizer sobre o retorno do Brasil e alguns fantasmas que o rondam.
Entre eles, a possibilidade de ser condenado numa das várias investigações de que é alvo e a intimação da Polícia Federal para que deponha nos próximos dias sobre as joias milionárias que a Arábia Saudita supostamente deu de presente à então primeira-dama Michelle Bolsonaro, em 2021.
Antes de passar pelo raio-x, Bolsonaro já havia dito para a Folha que não queria conversa, tampouco com um repórter do jornal O Globo que também o aguardava. “Vocês falaram muito de mim, agora, nas eleições”, justificou.
Novas investidas da imprensa foram ignoradas. Esboçou no máximo sorrir, e nada mais, quando instado a dar uma nota de 0 a 10 para o governo Lula. A certa altura, um dos assessores que o acompanhavam colocou um biombo para barrar a visão dos jornalistas.
Sérgio Rocha Cordeiro, que lhe serviu de assessor especial na Presidência, disse que ele só concederia entrevista no formato ao vivo, porque do contrário suas palavras poderiam ser distorcidas.
Já com a CNN Bolsonaro foi mais generoso. Conversou com o repórter da emissora por cerca de meia hora, numa transmissão em tempo real conduzida no lounge.
Falou mal do sucessor petista e do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Disse que não pretendia “liderar nenhuma oposição”, mas sim “colaborar com aqueles que assim desejarem”. Também sugeriu que deve ir presencialmente depor à PF sobre o presente dos sauditas.
Sentado na primeira fila da classe executiva, ao lado do assessor Sergio, o ex-presidente aceitou o copo de espumante oferecido pela comissária. Depois escolheu para acompanhar o jantar, um prato de nhoque ao sugo, um pouco de vinho branco Seival, safra 2022.
Uma ida ao banheiro rendeu algumas interrupções para mais uma rodada de fotos com ao menos 30 pessoas. Passageiros da classe econômica chegaram a fazer fila para garantir seu retrato depois do café da manhã, um pão com queijo e rosbife.
Com o avião já pousado, uma mulher puxou mais palmas: “Deus o abençoe, Bolsonaro”. Alguém completou com um amém. Uma passageira divergiu e fez um L com a mão, deferência a Lula.
O gesto partiu de Mariana, 24, uma estudante de enfermagem que estava a trabalho nos EUA e prefere omitir o sobrenome, por ter uma família bolsonarista.
“Me senti mal por estar rodeada de pessoas que apoiam Bolsonaro”, conta ao lado da melhor amiga —que perdeu o pai para a Covid semanas antes de começar a campanha de vacinação, com atraso. “A presença dele me traz algo ruim. Que mito, velho?”
Folhapress





