
Morreu nesta quarta-feira (9/8) o diretor teatral Aderbal Freire-Filho, aos 82 anos, um dos grandes encenadores brasileiros do século 20, devolveu à palavra a força da cena. Em uma centena de produções para o teatro, foi mestre do encontro do literário com a teatralidade.
A informação foi confirmada por sua assessoria de imprensa. Ele estava internado devido a um acidente vascular cerebral, sofrido em 2020. Desde então, a atriz Marieta Severo, sua mulher, montou uma UTI em casa para cuidar do artista.
Articulado e espirituoso, participou ativamente da vida cultural do país. Contador de histórias, questionador, falava como quem conversava com os filósofos, dramaturgos e encenadores que o precederam.
Em uma edição do “antiprograma” Arte do Artista, que apresentou na TV Brasil, deitou-se muito à vontade com seu notebook no chão do cenário feito de pedaços de peças do seu repertório, para anunciar o papo com editores de uma revista impressa de crítica e estética. Ali, víamos enlaçar o sério e o humor, a erudição e o chão do palco.
Nascido em Fortaleza, em 1941, filho do dono de uma livraria que faliu, tornou-se inventor nos palcos cariocas depois que preferiu o teatro à advocacia. Já atuava desde os 13 anos quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1970.
Devoto debochado de Brecht, cogitava que, se o alemão fosse seu contemporâneo, teria se interessado pelas combinaçōes entre o dramático e o épico, tal como ele. Praticou, portanto, uma fidelidade desejante, em mutação.
Nos anos 1970 e 1980, Aderbal se dedicou a encenar uma geração de dramaturgos brasileiros como Flavio Marcio, Aldomar Conrado, Vianinha e Leilah Assumpção.
Em um de seus trabalhos derradeiros, dirigiu Lucélia Santos e Beatriz Azevedo no “Cabaré Transpoético”, de 2019, inspirado pelo Cabaré Voltaire suíço, onde vanguardistas refugiavam-se em meio à Primeira Guerra Mundial.
Na última década, acirrou a crítica social em sua fala e escrita, e lamentou a desconexão da população com uma arte que, nos anos de chumbo, fizera-se porta-voz da luta política.
A quem lhe perguntasse sobre a importância do teatro para a sociedade, respondia: nenhuma. A quem se preocupasse com o futuro dessa arte, contudo, professava que chegaria o dia em que tudo seria feito por aplicativo —menos o teatro.
Folhapress





