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20/10/2026

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Comissão Especial de Inquérito pode investigar obra de R$ 11,5 milhões da gestão do ex-prefeito Felipe Augusto em São Sebastião

Núcleo de Jornalismo | Diário Caiçara — Onze dos 12 vereadores de São Sebastião assinaram um requerimento para a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) destinada a investigar uma obra de R$ 11,5 milhões contratada durante a administração do ex-prefeito Felipe Augusto.

O pedido foi apresentado na Câmara Municipal no dia 13 de outubro e tem como alvo a obra da Rua João Gabriel, planejada para ligar os bairros Porto Grande e Pontal da Cruz. A intervenção foi contratada por R$ 11.507.320,68 e permanece sem conclusão integral.

A previsão, segundo informações divulgadas nesta terça-feira (20/10), é que o requerimento seja lido durante a sessão ordinária da Câmara, com possibilidade de formalização da comissão.

Dos 12 parlamentares, apenas a vereadora Henriana Lacerda não assinou o documento.

Investigação envolve licitação, contrato e execução da obra

O requerimento, apresentado pelo vereador Pedro Renato da Silva, pretende investigar o Processo Administrativo nº 4.104/2023, a Concorrência Pública nº 003/2023 e a execução do contrato.

Entre os pontos que deverão ser esclarecidos estão o planejamento da intervenção, os valores envolvidos, a fiscalização dos serviços, os pagamentos realizados e os procedimentos de desapropriação de terrenos necessários à obra.

A existência desses questionamentos não significa, por si só, que tenham ocorrido irregularidades ou prejuízo aos cofres públicos. A identificação de eventuais responsabilidades dependerá da análise dos documentos e das investigações.

Tribunal de Contas já havia determinado correções no edital

A licitação da obra passou por análise do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) ainda em 2023.

Na ocasião, o órgão determinou a suspensão cautelar do processo licitatório e examinou questionamentos relacionados às exigências de habilitação, ao acesso ao edital e às referências utilizadas na elaboração do orçamento.

Em agosto daquele ano, o Tribunal julgou a representação parcialmente procedente e determinou correções, incluindo ajustes na referência de preços utilizada pela Prefeitura.

Durante o procedimento, o Ministério Público de Contas também solicitou esclarecimentos sobre a origem dos recursos.

A administração municipal informou que pretendia financiar a intervenção por meio do FINISA, linha de financiamento operada pela Caixa Econômica Federal.

A decisão do Tribunal tratou das condições do edital e não representou uma conclusão sobre a execução posterior da obra ou a existência de danos ao patrimônio público.

Contrato de R$ 11,5 milhões foi assinado por Felipe Augusto

Em 20 de fevereiro de 2024, a Prefeitura de São Sebastião, então comandada por Felipe Augusto, assinou o Contrato Administrativo nº 2024SE0110 com a empresa J.R. Construtora e Terraplanagem Ltda.

O valor inicial foi estabelecido em R$ 11.507.320,68.

O documento previa prazo de execução de 12 meses a partir da ordem de serviço, além de fiscalização pelo Departamento de Obras Públicas.

Também estabelecia a necessidade de registros em diário de obras, medições dos serviços executados, fotografias e apresentação de notas fiscais para a realização dos pagamentos.

Ainda não há confirmação documental suficiente sobre a data exata da ordem de serviço e eventuais prorrogações ou suspensões que permitam estabelecer o prazo definitivo para a conclusão da intervenção.

Desapropriação de terreno também levanta questionamentos

Outro ponto que deverá receber atenção é a sequência dos procedimentos relacionados à pavimentação e à desapropriação de uma área particular.

Em março de 2024, a Prefeitura anunciou a Rua João Gabriel como uma nova alternativa de circulação, com aproximadamente 1.150 metros de extensão.

Em junho, a administração divulgou a aplicação de asfalto na via.

Entretanto, a declaração de utilidade pública de uma área particular de 7.015,65 metros quadrados vinculada ao projeto ocorreu somente em 22 de julho de 2024, por meio do Decreto nº 9.404/2024.

A ação judicial de desapropriação foi apresentada em agosto daquele ano.

Em representação encaminhada ao Ministério Público, o vereador João Paulo Teixeira informou que a avaliação inicial do terreno chegou a R$ 3,8 milhões, enquanto uma estimativa pericial apontou R$ 2,72 milhões.

O parlamentar também relatou dificuldades relacionadas à imissão na posse do imóvel, autorizada judicialmente em fevereiro de 2025.

A sequência desses acontecimentos deverá ser esclarecida para determinar quais áreas estavam disponíveis quando os serviços começaram e quais providências foram adotadas para garantir a continuidade da obra.

Mais de R$ 6,4 milhões aparecem em registros de despesas liquidadas

A representação encaminhada ao Ministério Público também menciona informações do Portal da Transparência que apontavam R$ 6.456.805,65 em notas fiscais liquidadas.

O montante corresponde a aproximadamente 56,1% do valor original do contrato.

Entretanto, a liquidação de uma despesa não significa necessariamente que o dinheiro tenha sido efetivamente pago à empresa.

Para esclarecer a situação financeira da obra, será necessário analisar empenhos, medições, notas fiscais, comprovantes de pagamento, eventuais aditivos contratuais e registros contábeis.

Também deverá ser verificada a origem dos recursos utilizados e a eventual participação do financiamento FINISA.

Ministério Público recebeu representação sobre a obra

O vereador João Paulo Teixeira encaminhou ao Ministério Público de São Paulo uma representação questionando aspectos da contratação, dos valores, da desapropriação e do traçado da Rua João Gabriel.

Segundo informações divulgadas, o documento foi juntado a um procedimento anteriormente instaurado.

Até o momento, não há confirmação oficial sobre as diligências realizadas ou sobre a conclusão da análise pelo Ministério Público.

A representação reúne questionamentos apresentados pelo parlamentar e não constitui comprovação de irregularidades.

Vereadora explica por que não assinou o pedido

A vereadora Henriana Lacerda foi a única integrante da Câmara Municipal que não assinou o requerimento para abertura da Comissão Especial de Inquérito.

Questionada, ela justificou que o caso já estaria sendo analisado pelo Ministério Público e que recebeu a documentação poucos minutos antes de uma sessão legislativa.

Segundo a parlamentar, o material apresentado reunia aproximadamente 500 páginas, sem tempo suficiente para uma análise antes da assinatura.

Henriana afirmou que prefere examinar os documentos antes de assumir uma posição formal e que considera necessária cautela nesse tipo de procedimento.

Comissão poderá aprofundar investigação

Para a abertura de uma Comissão Especial de Inquérito na Câmara de São Sebastião, são necessárias pelo menos quatro assinaturas, equivalentes a um terço dos 12 vereadores.

O requerimento apresentado conta com 11 assinaturas, superando o número mínimo exigido.

A instalação formal, a composição e o prazo de funcionamento deverão seguir as regras previstas na legislação municipal e no Regimento Interno da Câmara.

Caso seja instalada, a comissão poderá solicitar documentos, analisar contratos e ouvir pessoas relacionadas à obra, respeitando os limites legais e o direito de defesa.

A apuração deverá esclarecer as decisões tomadas desde a licitação, em 2023, até a situação atual da Rua João Gabriel, incluindo a execução dos serviços e a aplicação dos recursos públicos.

A eventual responsabilização de agentes públicos ou empresas dependerá das conclusões das investigações e das providências adotadas pelos órgãos competentes.

Imagem: rua João Gabriel, Porto Grande, São Sebastião e arquivo

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