
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse acreditar na inocência da ex-presidente argentina Cristina Kirchner nesta quinta-feira, após visitá-la em seu apartamento, no bairro portenho de Constitución, onde ela cumpre prisão domiciliar por corrupção. O encontro, que ocorreu ao final da participação de Lula na cúpula do Mercosul em Buenos Aires, durou pouco menos de uma hora.
Após a visita, Lula se encontrou com o Prêmio Nobel da Paz argentino Adolfo Pérez Esquivel na residência do embaixador brasileiro, onde tirou uma foto com um cartaz “Cristina Livre”.
— Acredito na inocência de Cristina — disse Lula, segundo interlocutores presentes no encontro com Esquivel.
A ex-presidente foi condenada a seis anos de corrupção, e, a menos que a Justiça decida revogar o benefício da prisão domiciliar — ao qual ela tem direito por ter mais de 70 anos —, Cristina deverá passar os próximos seis anos detida, usando tornozeleira eletrônica e tendo de respeitar várias limitações.

Em uma publicação em sua conta oficial no Instagram, Cristina compartilhou fotos batidas no interior de seu apartamento ao lado do presidente brasileiro. Ela comparou sua situação jurídica à enfrentada por Lula no Brasil — condenado à 12 anos e 1 mês por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso envolvendo um triplex no Guarujá, no âmbito da Operação Lava-Jato. Ele cumpriu 580 dias da pena na sede da Polícia Federal em Curitiba, antes dos processos serem anulados por vícios em seu curso. Cristina disse que ambos foram vítimas de uma “guerra jurídica”.
“Hoje recebemos o companheiro Lula em minha casa, onde estou em prisão domiciliar por decisão de um Judiciário que há muito tempo deixou de esconder sua subordinação política e se tornou um partido político a serviço do poder econômico”, escreveu Cristina, antes de comparar sua situação à de Lula. “Lula também foi perseguido, também usaram a guerra jurídica contra ele até prendê-lo, também tentaram silenciá-lo. Não conseguiram. Ele voltou com o voto do povo brasileiro e de cabeça erguida. Por isso, hoje, SUA VISITA FOI MUITO MAIS DO QUE UM GESTO PESSOAL: FOI UM ATO POLÍTICO DE SOLIDARIEDADE”.
A ex-presidente argentina também utilizou a publicação para criticar diretamente o atual mandatário, Javier Milei, e seu governo, afirmando que “os olhos do mundo” observam uma “deriva autoritária”. Ela definiu a situação como “terrorismo de Estado de baixa intensidade”.
O advogado de Cristina, Carlos Alberto Beraldi, teve de apresentar um pedido formal de autorização para a visita de Lula aos juízes da Segunda Vara Federal de Direito Oral. Ele obteve a autorização ontem.
O presidente não fez comentários, nem na entrada nem na saída. Até o momento, Lula tem sido comedido em seus comentários sobre a situação jurídica de Cristina. Em um tuíte publicado em 11 de junho, após conversa telefônica com a ex-presidente, ele expressou sua “solidariedade” em um “momento difícil”, mas evitou avaliar o processo que levou à sua condenação.
Do lado de fora, militantes de kirchneristas cantavam músicas peronistas, com mensagens de apoio à ex-presidente. Em vários momentos, os militantes pediram que Lula aparecesse na varanda do apartamento, mas o ex-presidente optou por não transformar a visita num ato de militância política.
Seus assessores insistiram, em todo momento, que “Lula não entrará no mérito do processo judicial”.
— Eles são os expoentes da justiça social, vim apoiá-los — disse à AFP Martín Greaves, de 32 anos, que visitou o local. — É difícil e triste, mas me dá esperança ver que Lula não a abandonou, não se esqueceu dela.
Kirchner, 72, lidera o Partido Justicialista e é o principal oponente do governo do presidente ultraliberal Javier Milei. Condenada, ela só pode receber familiares, médicos e seus advogados, de acordo com as condições de detenção impostas pela Justiça. Sua sentença, que também inclui proibição perpétua de exercer cargos públicos, foi mantida dias depois de ela anunciar sua candidatura a legisladora pela província de Buenos Aires.
O presidente chegou acompanhado de poucos assessores. Seu último compromisso em Buenos Aires foi o encontro com o Prêmio Nobel da Paz argentino Adolfo Pérez Esquivel, na residência do embaixador brasileiro. Encerrada a agenda em Buenos Aires, Lula viajará para o Rio de Janeiro, onde será anfitrião, nos dias 6 e 7, da cúpula de presidentes e chefes de governo do Brics.
O Globo com La Nación





